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A infância condicinal da criança
A maturidade se constitui necessidade de cada ser humano, sendo esta a finalidade para a busca da aprendizagem. Essa busca se estabelece de tantas formas que, enquanto há certo processo de maturidade tendente aos princípios da ética e da moral, num contexto de passividade social, outros processos seguem rumos contrários, de acordo com a diversidade de interesses pessoais ou coletivos de determinados grupos. Em sua grande maioria, esses interesses sugerem o descaso com as necessidades inerentes do outro, numa provocação de queda daqueles que detêm fragilidade e dos valores morais e sociais que fundamentam a formação de um bom cidadão . De tal descaso, não se exclui a integridade física, moral e afetiva da criança e do adolescente, tão carentes de orientação e de proteção. Estes, geralmente, são vítimas da indiferença dos adultos contra sua inegável presença. Infelizmente, as estatísticas indicam, que o destino de muitas crianças, no Brasil e no mundo, não promete nenhuma satisfação de felicidade pelo reconhecimento de seus direitos, como criança e como adolescente. Até mesmo num ambiente de escolaridade, esses indivíduos são vítimas de tal prática, fazendo-os desejar o abandono da sala de aula e a praticar a evasão escolar, o que proporciona-lhes alívio e uma recusa interior de sentir saudade da escola.
Durante muito tempo na história dos seres humanos, se constatou a prática da violência contra as crianças. Algo que não pode passar despercebido, sem uma digna reflexão e ação consequente, para aniquilar essa violência. O filme “Crianças Invisíveis”, produzido por diversos diretores, com a intenção de distribuição gratuita, demonstra a realidade vivida por muitas crianças e adolescentes do mundo inteiro. Tais enredos nos trazem a certeza do desprezo contra esses pequenos vitimados. Suas cenas instigam à reflexão conscienciosa da realidade travada por esses, mediante seus conflitos internos, algo aplicado pela pedagogia de ensino da sociedade, tão corrompida por seus interesses. Todas essas crianças, sem distinção de idade ou sexo, sonham com o direito de conquistar sua felicidade, o que para muitas já se tornou uma utopia, sobrando-lhes duas alternativas: sofrer, conformado com a realidade ou causar sofrimento e prejuízo aos outros, como forma de sua vingança.
Um grande exemplo dessa pedagogia é a realidade demonstrada no curta-metragem do diretor Mehdi Charef, intitulada “Tanza”. O filme:
“Relata o cotidiano africano de quatro crianças lideradas por um adolescente. Armados com metralhadoras, foram obrigadas a abandonar sua rotina de criança, com brinquedos, brincadeiras e estudos, restando apenas lembranças. O enredo da história revela que esses jovens não são os únicos nessas condições, pois os mesmos, estão no lugar de outras, que não conseguiram sobreviver em tal rotina. Combatentes contra um povo invasor, tiveram que acelerar sua maturidade, obtendo assim, uma maturidade precoce, sendo desta forma, tratados por seus inimigos (soldados adultos), como merecedores de morte. Estes, para não morrer, deveriam rejeitar o medo, sendo corajosos no combate armado. Essa forma de viver, retirou deles a inocência e a sensibilidade humana, considerando as crianças e mulheres de seus inimigos, dignos de morte, como forma de sua vingança. O protagonista do curta-metragem, repudia a todos os direitos que as crianças de seus inimigos detêm, contudo, volta atrás, preferindo morrer junto com a explosão a que estava incumbido de provocar, já que recebeu a missão de explodir a escola da comunidade, quando se achava digno dessa escola e capaz de aprender”.
Esse curta-metragem demonstra a condição desses combatentes, como crianças, porém não detentores de infância, já que tiveram uma maturidade precoce. Para que as mesmas desfrutassem de uma infância que lhes pertencia por direito, deveriam viver como criança, com suas brincadeiras, estudos, alegria e felicidade. Porém, tudo isso foi trocado: brinquedos por armas, escola por combate, alegria e felicidade por tristeza, raiva e ódio, inocência por maturidade precoce, carregada de imaturidade afetiva e insensibilidade com o sofrimento dos outros. Infelizmente, essa insensibilidade, não está somente no coração desse pequenos soldados. Conforme veremos nas reflexões do curta-metragem de John Woo, “Song Song e a Pequena Gatinha”, a insensibilidade com o sofrimento dos outros está no coração de muitos adultos. Vejamos:
“Song Song e “Pequena Gatinha” (Apelido carinhoso recebido de seu avô adotivo), possuíam realidades diferentes e de contraste financeiro, porém, ambas carregadas de sofrimento. No período de nascimento da “Pequena Gatinha”, Song Song, uma criança chinesa de mais ou menos cinco anos, presencia uma discussão acalorada e violenta de seus pais, tornando-se nervosa e calada. Seus pais não demonstram sensibilidade ao sofrimento dessa criança, no momento, preocupados apenas com sua situação. Essa criança cresce no sofrimento de não poder viver na companhia dos dois. Em razão da vida, com sua mãe, sem a presença de seu pai, torna-se uma criança totalmente calada e esquisita, sem obter a devida atenção. Já “Pequena Gatinha”, fora abandonada por sua mãe, no lixo, por motivos desconhecidos, apesar de parecer uma mãe que vive na miséria. Essa criança é encontrada por um idoso, catador de lixo que, decide adotá-la, cuidando dela como sua neta. Essa criança cresce aprendendo a cuidar dos afazeres de casa, como cozinhar e ir ao mercado, para conseguir alimentos necessários à sua subsistência. Seu avô, pretendendo juntar dinheiro para poder colocá-la numa escola, passa a trabalhar por mais tempo. Morreu atropelado por um caminhão, quando tentava pegar um objeto para concertar a boneca de sua criança (essa boneca fora jogada na estrada por Song Song há alguns anos e o velhinho a tinha encontrada e dado de presente a sua neta). “Pequena Gatinha” passou a viver só, na casa onde vivia com seu avô, sendo, logo em seguida, adotada por um homem que trabalhava com flores artificiais. Este homem tinha em sua casa, como escravas, várias crianças, meninas que montavam flores e as vendiam, entregando o dinheiro a este que, era tratado por todas as crianças como “Chefe”. A criança que não conseguisse vender as flores eram espancadas e ficavam sem a refeição. A única boneca que essas crianças tinham para brincar era aquela boneca que “Pequena Gatinha” levou consigo. Num certo dia, quando “Pequena Gatinha” estava a vender flores, sendo ignorada por todos e espancada por outros, encontra Song Song, num carro que estava parado no trânsito com sua mãe, e tenta vender a flor aquela mulher, sendo ignorada. Percebe que está sendo observada por Song Song, que reconheceu a boneca que jogara na pista há alguns anos atrás, e tenta vender essa flor. Como não conseguiu vender, sorridente entrega a flor, gratuitamente, para a garota que, sai do silêncio e volta a cantar, justamente no momento em que sua mãe iria jogar-se no rio, com sua filha dentro do carro. A mudança de comportamento da filha fez sua mãe mudar de ideia, a qual voltou para casa e cuidou da mesma com muito carinho. No desfecho da história, tudo indica que Song Song e a “Pequena Gatinha” ficaram grandes amigas, e a mãe da primeira ajudou a segunda, tendo agora, a oportunidade de estudar”.
Dentre cada contexto no qual desenrola-se a história, constata-se a presença da indiferença dos adultos para com a efetiva existência infantil. São desconsiderados nesse contexto, as necessidades dessas crianças. Tornam-se invisíveis no contexto dos adultos e responsáveis e, em razão disso, utilizam ações, palavras e comportamentos destrutivos para sua formação e integridade humana. Tais crianças tornam-se vítimas da extirpação de sua afetividade e de seus direitos de criança. O pequeno curta-metragem de John Woo traz a nossa consciência a comparação de duas realidades diferentes, ambas carregadas de mesma injustiça contra a efetividade existencial infantil. Isso nos mostra que, numa condição econômica estabilizada ou num completo estado de miséria, o tratamento que se dar a uma criança pode fazer a diferença. Isso está claro nesse curta-metragem, quando percebemos uma criança originária de família rica, sofrer com a indiferença de seus pais e, diante da constatação de uma outra criança, originária da penúria financeira, ser acolhida por alguém que não tinha condição de se manter sozinha, cuidar com amor e carinho, de uma criança abandonada no lixo, como se não tivesse valor algum. Essas duas crianças tiveram infância diferentes em certo contexto e se assemelharam em outros. A princípio, a primeira criança teve sua infância ludibriada pela sua própria família, enquanto a segunda criança se quer teve infância, pois experimentou uma adultez infantil, ou seja, cresceu aprendendo e executando as responsabilidades de uma dona de casa. Todo esse sofrimento foi causado por decisões impensadas de responsáveis legais de tais crianças: a separação, o abandono de incapaz, o suicídio homicida, presentes no curta-metragem, revelam essas decisões, que só foram remediadas ou evitadas, mediante um pequeno gesto de criança, em presentear uma outra criança (adolescente) com aquilo que poderia ser a razão para seu castigo, mas que trouxe alegria e salvação para duas pessoas que já não tinham ânimo para continuar vivendo. Tais crianças, segundo o curta-metragem, tiveram o privilégio de se encontrarem com a infância perdida, algo que lhes pertencia por direito. Sendo duas experiências diferentes: para uma criança acontece o retorno à felicidade junto de sua família, para outra, uma perspectiva diferente do que é ser criança e ter infância.
Convém observar que, em ambos os curtas-metragens está presente a exploração do trabalho infantil, tanto de ordem militar, quanto de ordem profissional e, ambas contrariam os princípios da dignidade humana de crianças e adolescentes. Assim, tais sujeitos crescem sem a maturidade necessária, consequente da vivência inerente a cada fase da vida humana. Se o interesse e a curiosidade natural das crianças forem bem utilizados e convenientemente orientados, terão a oportunidade de ter infância, proporcionada pelas experiências significativas, relativamente à vida que as circunda. Contudo, não é assim que acontece no curta-metragem produzido por Kátia Lund, intitulada “Bilú e João”. O curta-metragem apresenta:
“Duas crianças de faixa etária diferentes, vivendo a realidade de crianças trabalhadoras numa cidade brasileira. São crianças que possuem família e essa, pobre e carente de recursos, não as desprezam, no sentido de acolhimento habitacional. Contudo, exploram seu trabalho. Estando em construção, a casa onde mora, que fica numa favela, são obrigadas pelo seus pais, numa aproveitamento de sua disposição para o trabalho, conseguir ganhar algum dinheiro nas ruas e com esse dinheiro comprar tijolos para a construção dessa casa. Essas crianças aproveitam situações inusitadas para ganhar dinheiro, acordando muito cedo, em busca de oportunidades de trabalho informal, arriscando-se à violência física, de trânsito e exploração da inocência econômica e financeira. Aproveitam o próprio trabalho para simular brincadeiras infantis, catando latas, papelão e ferro para vender no ferro velho. Esse trabalho, não dá condições a essas crianças, de se quer comprar um lanche, voltando para casa, apenas com os tijolos pedidos pelo pai”.
É de grande importância frisar que, a realidade presente no curta-metragem “Bilú e João”, também é de abandono, apesar dessas crianças conviverem com seus pais, pois o trabalho executado por essas, retiram todo o seu tempo de desfrutar de seus direitos de infância. Viver uma infância não é simplesmente não trabalhar e ter tempo de sobra para brincar. Essa infância bem vivida, merece a participação dos pais. No curta-metragem de Kátia Lund, Bilú e João brincavam nas ruas, enquanto trabalhavam, contudo, em sua própria família, a relação era de “membro capaz de colaborar com a manutenção de recursos”, portanto, essas crianças tiveram uma infância deficiente. Poderiam crescer e depois, ter em sua consciência que, não tiveram o direito de ser criança, tal qual a infância lhe permitisse.
É preciso considerar que, a realidade vivencial de nossas crianças, não é muito diferente da realidade fictícia dos curtas-metragens analisados. Quantas crianças e adolescentes precisam viver sem medo, pois este tiram-lhe a possibilidade de defesa? Espalhadas pelo mundo afora, há um contingente muito grande de crianças exploradas, de todas as formas possíveis. São crianças vitimadas pela exploração do trabalho infantil, em casa e fora dela, crianças vitimadas por abuso sexual, de seus familiares e amigos, dentro de sua própria casa e nas ruas, com a finalidade de conseguir algum dinheiro para ajudar no orçamento da família, são crianças que vivem nas ruas de uma forma ou de outra em que, muitas preferem fugir de casa para não sofrer a violência contra as mesmas praticadas. Todas essas crianças sonham com a felicidade, contudo o que encontram é infelicidade e miséria. A miséria vivida pelas crianças, dentro de suas casas, não é motivo para que tenham seus direitos infantis transgredidos. O problema é que, tais crianças, além de sofrer as consequências da miséria financeira, sofrem com a violência física, afetiva e sexual contra elas. Por outro lado, não podemos afirmar que a abundância de recursos econômicos e financeiros sejam critérios de felicidade à criança. A riqueza não é regra de felicidade, tendo em vista, a existência de muitas crianças de pais ricos, sozinhas, tristes e desamparadas, abandonadas e desprovidas do carinho e da afetividade necessária para seu crescimento coerente, como criança realizada.
A realidade alagoana não está muito diferente de outras espalhadas pelo mundo. Também, neste Estado, as crianças sofrem a indiferença aos seus direitos. A prática da exploração infantil, em diversos sentidos, oferece a nossas crianças descaminhos de insociabilidade, como sejam, os de uso de drogas, assaltos a mão armada, tráfico de drogas, roubos, violência entre grupos rivais, estupros, homicídios. Compreende-se então, que, a juventude, infantil e adolescente alagoana, está se envolvendo cada vez mais com tais práticas. Logo, se algum cineasta fosse retratar a realidade alagoana num filme de mesmo tema, “Crianças Invisíveis”, tais situações estariam presentes em seu enredo, mostrando, inclusive, o abandono dos filhos pelos pais, abandono dirigido ou forçado, além da associação de crianças, com traficantes, para aquisição de drogas, prática de assaltos e roubos em estabelecimentos da cidade e a indivíduos andarilhos. Nesse vídeo, também estaria presente, crianças que enfrentam seus pais e, até pagam criminosos para assassiná-los.
É difícil conseguir descobrir as reais causas que levam uma mãe ou um pai a abandonar seu filho a própria sorte, pois, as ações dos pais se refletem nos filhos e, estes adultos, um dia também foram crianças, talvez também, vítimas de uma infância perdida. Porém, essa não pode continuar sendo a regra de convivência entre pais e filhos. Aqueles que, em algum momento de suas vidas, foram vítimas de infância desprezada, precisam mudar os princípios ocultos em sua educação, para princípios fundamentais de educação, para a construção da paz interior de nossas crianças. Para tanto, há uma necessidade da consideração dos direitos infantis, de serem abraçados pelo amor. Somente nessa vivência afetiva, as crianças terão a oportunidade de viver sua infância.
Tópico: A infância condicinal da criança
Data: 09-05-2012